Os
fiéis gritam, adoram, veneram e tentam tocar na estátua da Deusa.
Depois de todas as demonstrações de devoção a cerimónia acaba e os
fiéis vão embora.
No templo vazio, Tommy aproxima-se da estátua e, sem querer,
derruba-a.
Em segundos toda a grandiosidade, poder e santidade de Marilyn
transformam-se em inúmeros cacos espalhados pelo chão do templo.
A busca desesperada pela estética, a adoração do corpo perfeito a
qualquer custo são a “estátua de Marilyn” de nossos dias em todo o
mundo.
Ficamos horas e horas em salões de beleza e academias. Gastamos
fortunas em cirurgias plásticas e tratamentos. Tudo pela
“perfeição”.
Para atender a padrões de beleza predefinidos chegamos ao ponto de
mutilar nossos corpos e provocar acidentes e distúrbios
psicológicos, que levam à morte. Como é o caso das pessoas
anorécticas e intoxicadas por uso de produtos químicos ou vitimadas
por dietas “infalíveis”.
Antes que me acusem de atacar a indústria dos cosméticos ou de estar
vendendo um padrão de vida desleixado, quero dizer que ir a salões
de beleza, usar cremes, perfumes, fazer exercícios e até algumas
intervenções cirúrgicas são actividades saudáveis.
O problema está na veneração de padrões estéticos, na adoração da
plástica, quando a verdadeira beleza está muito além disso tudo.
Um belo rosto, seios bonitos e cabelos impecáveis são apenas
ingredientes da beleza, mas não substituem a naturalidade, a saúde,
o charme, a inteligência.
Ou seja, tudo que faz alguém realmente interessante, não só para
passar uma noite, mas talvez até para compartilhar uma vida.
Hoje a estética ganhou um espaço tão exagerado, que milhões de
pessoas a consideram essencial e o único caminho para a aceitação e
ascensão social e para a felicidade.
Isso gera sofrimento, perda da auto-estima e uma busca desenfreada
pelos padrões preestabelecidos, muitas vezes por razões puramente
económicas.
O problema é tão evidente que até algumas empresas do mundo dos
cosméticos resolveram reagir e mudar o discurso.
Ao invés de continuar prometendo o que não vão cumprir, passaram a
incentivar ideias e comportamentos mais saudáveis e acessíveis a
todos nós.
Durante um bom tempo a Natura divulgou uma campanha publicitária que
trazia o conceito de “mulheres bonitas de verdade”: de todas as
idades e raças, bem produzidas e exibindo padrões estéticos tão
atraentes quanto os das modelos anorécticas, retocadas em programas
de computador. Porém, muito mais reais e parecidas com as
consumidoras.
O conceito deu tão certo que, mesmo com o fim da campanha, as
modelos continuam sendo mulheres de verdade.
A linha de produtos Dove, lançou uma campanha pela real beleza, que
mostra mulheres de todas as cores, idades e pesos de bem com seus
próprios corpos.
Uma pesquisa desenvolvida para a campanha, nos cinco continentes,
mostra que dois terços das mulheres no mundo, de quinze a sessenta
anos, evitam actividades básicas da vida porque se sentem mal com
sua aparência.
Bombardeadas pelos padrões de beleza impostos em nossos dias,
milhões de mulheres acabam sofrendo algum tipo de dano na
auto-estima.
Hélder Santana