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Se antes os ídolos
da juventude eram os desportistas e os actores de cinema, agora são as
modelos. Dedicam-lhes programas inteiros de televisão, a sua presença é
a mais cotada nas festas, enchem as revistas chamadas de "imprensa cor
de rosa" e para muitos
homens são o troféu mais apreciado. Se, no passado, as mulheres queriam
gerir Bancos, empresas ou pilotar aviões, hoje muitas só
sonham em desfilar pela passarele e ser capa da "Vogue".
A vida de modelo
apresenta-se para muitas adolescentes como o cúmulo da felicidade: beleza,
fama, êxito e dinheiro. As tops mostram-se lindas em qualquer altura,
dispõem de aviões privados, viajam por todo o mundo, vêem-se acompanhadas
por quem querem e cobram milhões por poucos minutos de trabalho. Que mais
se pode pedir? Muito mais, porque na vida nem tudo é a beleza nem o
dinheiro; porque a felicidade, mais que no aspecto físico, no exterior,
está no anímico, no interior; porque enriquece mais cultivar os valores
morais que os meramente corporais.


Tudo depende, é verdade, da hierarquia de valores. Se
se sobrestima a aparência, acima do ser, os aspectos relacionados com o
físico são engrandecidos. Esta é uma constante da chamada civilização da
imagem, imperante na actualidade . Além disso, esta civilização tem umas
normas muito concretas: não se trata de ter estilo ou elegância, coisas
importantes e que, como se considerou antes, ajudam a que o homem se
realize. Não, não se trata de ser elegante mas de ter certas medidas, de
seguir uns cânones rígidos de beleza que apresentam alguns modelos
publicitários.
O problema está em que estes cânones vigentes na
actualidade são bastante inacessíveis. O tipo de atracção que hoje impera é
o de uma magreza extrema. Esta é a causa principal de uma enfermidade que
ganha cada vez mais importância na adolescência: a anorexia, uma
perturbação psíquica que leva a uma distorção, a uma falsa percepção de si
mesmo. Na maioria dos casos, esta enfermidade costuma começar com o desejo
de emagrecer. Se alguém se julga gordo sente-se rejeitado por esta razão.
Pouco a pouco deixa de ingerir alimentos e perde peso. No entanto, a
pessoa continua a considerar-se gorda, persiste a insegurança e começa a
sentir-se incapaz de comer. Esta enfermidade leva a desequilíbrios
psíquicos que podem acompanhar a pessoa para o resto da sua vida e em não
raras ocasiões provoca a morte.
É certo que se não pode culpar os anúncios por causar
esta patologia, mas também é um fato comprovado que o aumento dos casos de
anorexia coincide com estar na moda a excessiva magreza dos modelos. É
mais fácil surgirem estas perturbações numa sociedade na qual os que
aparentemente triunfam, os que são mostrados como exemplo nos cartazes
publicitários, roçam eles mesmos pela anorexia. A adolescente que, por
natureza, costuma ser facilmente manipulável e bastante insegura, é fácil
que acredite neste tipo de propaganda e inicie uma corrida desenfreada
para conseguir o que esta publicidade vende, que ao fim e ao cabo é a
felicidade.
O look anoréxico vai acompanhado ultimamente
pela denominada moda heroin-chic (nome tirado de uma canção na qual
Lou Reed proclama que a heroína é chic). Nos catálogos e passareles
mostram-se raparigas que, com uma magreza enfermiça, exibem o olhar
lânguido e perdido e os passos desequilibrados próprios dos toxicómanos.
O escândalo saltou para os meios de comunicação pois o que,
em princípio, era só uma ficção de passarele mostrou-se ser verdade; duas
modelos norte-americanas reconheceram a sua dependência das drogas e
confessaram que, para suportar a fome e conseguir o aspecto que hoje se
considera atraente num sector da moda, recorriam à heroína. Zou
Fleischauer, modelo, reconheceu que
"em Nova York quanto mais drogada
estava mais fabulosa lhes parecia".
A moda heroin-chic
está deixando atrás de si muitos cadáveres; esta é a razão pela qual até
Bill Clinton
tenha chamado a atenção daqueles meios de comunicação que destacam o
look anoréxico e toxicómano como algo atraente.
E não só Clinton manifestou o seu alarme
face a esta enfermidade, que se converteu na terceira causa de mortalidade
no mundo; médicos, psiquiatras e muitos representantes do mundo da moda -
desenhistas, estilistas, proprietários de firmas, etc. - começaram a
consciencializar-se da grave ameaça que a anorexia representa. Em alguns
casos, esta tomada de consciência foi mais um salvar a face em tons
festivos que uma resposta séria para o problema: há criadores que fizeram
desfilar mulheres gordas, como se uma simples imagem ajudasse a contrariar
os milhares de modelos que, praticamente em pele e osso, se passeiam pela
passarele.
Outros desenhistas manifestaram, com as suas
declarações e os seus modelos, a sua rejeição da estética anoréxica. "Não
me sento na primeira linha de responsabilidade quanto ao problema da
anorexia - declara o desenhista Jesús del Pozo -. É algo que me angustia e
me deprime. Uma coisa é ser esbelto e outra, muito diferente, ser doente.
Mas porque não se culpam os meios de comunicação? O receptor destas
imagens é quem tem de estar preparado para não se deixar manipular por
aquilo que foi criado para chamar a atenção" [1].
Antonio Pernas, outro ilustre da moda espanhola, vai
ainda mais longe propugnando que, unidas à forma física, há outras
qualidades muito importantes para a moda: "na vida e nos desenhos eu meço
tudo por valores. Assim, além da beleza, da altura, da apresentação,
detenho-me perante a elegância, a naturalidade, a presença, o movimento, a
personalidade e a inteligência. Não nos espartilhemos numa aparência"
[2].
O homem, e sobretudo a mulher, primeira vítima desta
enfermidade, tem que aprender a aceitar o seu corpo e tirar partido até
das suas próprias limitações físicas; a elegância e o estilo são algo mais
que um esqueleto bonito.
Sem chegar ao extremo da anorexia, são muitas as
pessoas que se deixam obcecar pelo seu físico e investem neste muitos
esforços que poderiam canalizar para outros objectivos: quantas
adolescentes que passam horas infindas a arranjar as unhas, desenhando os
lábios ou experimentando máscaras, são incapazes de passar esse mesmo
tempo a ler um livro ou a ver um bom filme!
Não se trata de descuidar o aspecto físico, mas sim de
lhe dar a sua importância, não mais que isso.
[1] Declarações de Jesús del Pozo
em "Época"
[2]
Declarações Antonio Pernas em "Época"
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